Primeiras Impressões

Claudio Dalmolim - 11 de outubro de 2004

 

Quando cheguei ao sítio a tentativa de transferência da colméia havia se consumado.

Em uma calha da casa as abelhas tentaram construir seu ninho, fato que levantou a dúvida se seu crescimento afetaria o forro da mesma. Tornava-se necessária, em primeira instância, a transferência para uma caixa de criação racional ou, se não fosse possível, sua aniquilação.

Claro que preferíamos a primeira opção. No entanto, nossa falta de experiência e um medo natural nos impediam.

Mesmo tendo lido alguns livros sobre o assunto, não ousava me intrometer. Não tinha equipamento, nem vontade de ter um relacionamento mais estreito com as abelhas. Tudo que desejava era conhecer seu comportamento de uma maneira platônica, o que me garantiria um estudo teórico de seu comportamento, analogias com a produção humana, alguns artigos e bem menos ferroadas durante a vida.

Também, para ter um certo conhecimento prático, tinha me inscrito em um curso de apicultura em um sítio vizinho. Primeira aula: domingo, dia 10 de outubro de 2004.

Cheguei no sábado à noite para acordar cedo no dia seguinte. E nesta fui devidamente informado do ocorrido. Um apicultor, colega do caseiro, tinha ido ao local com uma caixa pequena, abriu a estrutura da calha, pegou os favos cheios de crias e as transferiu. Fechou a parte superior da mesma e a deixou no telhado para que as abelhas entrassem na nova casa. Santa ilusão. Não que o método estivesse errado, afinal nem tenho conhecimento para exprimir esta opinião. Mas o tamanho da caixa era muito pequeno para a quantidade de abelhas da colméia.

As que não conseguiram entrar na caixa resolveram procurar nova morada ao entardecer. Não foram longe. Estavam reunidas em um galho de goiabeira do lado da casa, compactadas umas sobre as outras formando uma espécie de esfera irregular, do tamanho de uma bola de futebol. Assim as vi pela primeira vez, e meu instinto me avisava da precariedade da situação. No frio passaram a noite.

Dormi tranqüilo. Não sou do tipo de pessoa que não descansa por causa de pressões ou situações adversas, ou mesmo de pena das pequenas criaturas que estavam fora. Pelo menos aparentemente. Acordei e a primeira vontade foi ver se o enxame tinha ido embora para um novo lar. Não, estavam , no mesmo lugar e na mesma formação.

Quem sabe meu futuro professor se interessaria em coletá-las.

Oito horas em ponto estava na porta da Associação de Criadores. Pronto para aula e desejoso de tocar no assunto com ele. No início não demonstrou interesse. Também, com quarenta colméias à disposição, buscar mais uma talvez não fosse uma grande experiência. Assim deixei passar a manhã. Outros alunos chegaram e uma introdução teórica ocupou várias horas. Tinha avisado minha esposa que não iria almoçar. Fato comum no meu dia-a-dia. No entanto, pelas três da tarde minha mãe e meu sobrinho de oito anos vieram ver quando voltaria. Feitas as devidas apresentações, aproveitei e apelei para o lado sentimental. Perguntei se as abelhas estavam e quando tive a informação positiva, emendei que estava preocupado com as crianças que brincam nas imediações da casa. De pronto o professor se ofereceu e disse que tiraria imediatamente o enxame de . Começou a preparar uma caixa e os quadros para serem a nova moradia das abelhas. Notei que era do mesmo tamanho da que estava . Mesmo assim, não caberiam as abelhas remanescentes que estavam na árvore. Comentei com ele e, com ar duvidoso que me transmitia que poderia estar errado na minha alusão, começou a preparar outra caixa maior. Caprichou. Colocou quadros com favos antigos, mas formados, o que evitaria o gasto de tempo na construção da nova colméia. Ainda alguns, com mel, para consumo, afinal, provavelmente não dispunham de uma reserva energética que lhes garantiria recomeçar. Preparou uma mistura de açúcar e mel diluída em água quente, para acalmá-las, antes de começar a transferência.

Os alunos, embora não muitos, estavam em franca agitação. Não é todo dia que se pode acompanhar a transferência de um enxame para uma caixa de criação racional.

Assim, fomos para o sítio. Da entrada era possível verificar a goiabeira. Embora procurasse, foi o professor quem as viu primeiro. Talvez a prática. E pela primeira vez o vi espantado com algo. Descemos do carro e seu comentário me surpreendeu. Disse que naquela bola haviam cerca de cinqüenta mil abelhas. Mentalmente calculei o quanto estavam espremidas em uma tentativa de sobrevivência. As abelhas batedoras, embora se passassem mais de trinta e seis horas desde a saída da antiga colméia, não haviam encontrado lugar para uma nova casa. Mais uma noite no frio seria, provavelmente, fatal. Não podia deixar de colocar um pouco de drama nas minhas observações.

Colocamos as roupas. Como disse meu sobrinho: o tio virou astronauta. Como minha vestimenta era de aula, e possivelmente muito usada, notei que a luva da mão direita não fechava corretamente, possibilitando a entrada de uma abelha mais carinhosa que poderia me picar. Colocamos uma escada abaixo da árvore. A idéia era simples. Borrifar com a mistura, acalmá-las e, manualmente, começar a colocar pequenos punhados dentro da caixa, a qual estaria logo abaixo delas. Eu fiquei com a tarefa muito cômoda de segurar a escada. Risco quase zero.

Primeiro o professor subiu, borrifou, mostrou como elas se encolhiam quando o líquido as tocava e que depois começariam a se fortificar com a mistura. Depois começamos a subida da caixa, que devo esclarecer estava longe de ser leve. Cabia agora começar a pegá-las e colocá-las dentro. Mas como escada em terreno acidentado não é sinônimo de segurança, o professor não conseguia segurar a caixa ao mesmo tempo que as convidava a entrar.

Foi então que minha mãe, e sempre ela, que assistia a tudo de uma distância segura, sugeriu que eu subisse pelo outro lado da escada e ajudasse segurando a caixa. Não sei se ela percebeu meu sorriso amarelo, mas, como nesse mundo temos que demonstrar que temos coragem no sangue (ou inconseqüência, depende do ponto de vista), resolvi transferir a responsabilidade de segurar a escada para outro colega e comecei a subir.

Poucos degraus. Grandes desafios.

Ao chegar no topo, a visão. Segurei a caixa enquanto o enxame estava a menos de trinta centímetros do meu rosto. Cansadas, estressadas, não se agitavam muito. Foi então que o professor, calmamente, começou a pegá-las e colocá-las dentro. Confesso: senti vontade de sair correndo. Abelhas pousavam em mim, voavam por todos os lados, mas a maioria deixava ser colocada em sua nova moradia. Quantos minutos? Não faço idéia. Lembrei, então, da minha luva direita, levemente aberta. Mais de uma vez pensei em desistir. Pensei que, se soltasse a caixa a maioria cairia no chão e poderia ser bem pior. No mínimo mataria o enxame. No máximo ninguém estaria seguro.

Aos poucos o senso de pesquisador começou a tomar o seu lugar de direito.

Enquanto estávamos encima, comecei a raciocinar em analogias. Exatamente o que tinha me proposto desde o início dos meus estudos de animais que vivem em sociedade, supondo a colméia uma empresa, a qual sofreu um evento trágico que mudou todo o seu destino. O que eram as abelhas além de seres que aguardavam o direcionamento que as levariam a recomeçar a construir. Admirei sua coragem, a abnegação de esperar uma oportunidade propícia em um local ideal (uma má escolha poderia ser mais fatal do que a posição em que se encontravam), o senso de fatalidade e de luta, pois apesar de tudo estar contra, cada uma sabia exatamente a sua fração de sacrifício e o que tinha que fazer para perpetuar a colméia. Não entraram em pânico, apenas responderam e fizeram o que consideraram melhor para a instituição. Sempre somaram e nunca dividiram. Uma equipe treinada e responsável ao extremo.

Nunca saberei se encontrariam um local para viver sem nosso auxílio.

O que importa é o caminho que seguiram. Colocamos a caixa no chão cuidadosamente, abaixo da goiabeira. Com o tempo as que não estavam muito cansadas entraram na nova colméia. Muitas morriam pelo chão. O professor coletou manualmente as que tinham forças para se agarrar.

Um fato me chamou a atenção. Não sabíamos se a rainha estava ou não dentre as abelhas. Em caso afirmativo, e com um reforço de alimentação, em breve teríamos ovos e larvas que se transformariam em abelhas e conseqüentemente continuariam com a vida da colméia. Mas, se não, teríamos que colocar uma nova rainha para ser aceita. Seja como for, não seria naquele momento que veríamos isso.

O professor, então, decidiu que eu deveria ficar com a caixa. Aceitei relutante, pois não tinha prática com apicultura, nem era meu desejo inicial criá-las. Me senti como alguém que recebe um bebê no colo e não sabe como segurá-lo. Escolhemos um local e as alojamos. Após ir buscar um alimentador na Associação de Criadores, me despedi e prometi voltar para a segunda aula.

Não tinha acabado. Será que elas aceitariam a caixa ou iriam embora na primeira oportunidade?

Pra variar, em vez de deixar que fizesse a mistura para elas, minha mãe tomou a dianteira e me entregou pronta, ainda quente.

Após algum tempo me dirigi ao local onde estava a caixa. O que estariam fazendo? Teriam ido embora?

Aproximei-me calmamente, mas sem hesitação. Algumas abelhas estavam na porta (alvado), e passei a observá-las. Era claramente uma operação de limpeza. Pegavam as que estavam mortas e colocavam-nas para fora da colméia, jogando-as alvado abaixo. Embora à primeira vista parecesse cruel, era uma questão de higiene e organização fundamental para sobrevivência. Corpos em putrefação não são muito aconselháveis para se conviver. No fundo era um bom sinal. Tentavam voltar a uma existência normal, cada uma em sua função.

Coloquei a mistura como o professor havia me ensinado no alimentador e me retirei, pois anoitecia e tinha que voltar para a cidade. Deixei instruções para os próximos dias, visto que estaria distante.

Foi assim que consegui minha primeira colméia e ainda não sei se ela irá ou não definitivamente se desenvolver.

O que dizer deste domingo. Não sei se caminhei em minhas analogias. O que encontrei foi um respeito pela natureza que não sabia que tinha. Admiração por um trabalho que privilegia a equipe, de uma responsabilidade social intensa e envolvente.

Ganhamos o dia.

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